Pai ou Mãe?

Camila Gil Marquez Bresolin [1]

 

Com a proximidade do “Dias dos Pais”, alguns temas e sentimentos podem vir a ocupar os nossos pensamentos. A data é comemorada entre as famílias e festejada no comércio, mas é importante que se diga que ela também é motivo de muita dor e inquietação.

Afinal, o que é ser pai? Quem pode ser chamado de pai? Precisa ser do gênero masculino para ser considerado pai? Qual é a necessidade de classificarmos com uma nomenclatura rotulada e repetida, aquela pessoa que, seja lá que corpo e estado sexual tenha, exerce as suas atribuições, com dedicação e carinho. Cada uma destas questões será enfrentada, ainda que brevemente, no afã de despertar a necessária conscientização a respeito dos temas apontados.

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Saber o que é ser pai e como é que se aprende a ser pai, talvez sejam as reflexões mais difíceis a se fazer. Não existe curso preparatório com eficácia garantida, para aprender a ser um pai. Ser pai é construir um relacionamento com o filho, portanto, não é apenas uma situação dada, é construída, dia após dia, e de grandes desafios.

Desde a nossa tenra idade, somos treinados a repetir “papai e mamãe”, num velado (ou nem tão velado) clima de disputa entre os genitores para saber qual será a primeira palavra dita pelo bebê. Acontece que as famílias não são, apenas e tão somente, formadas por um papai e uma mamãe. Aliás, se existe um grande desafio conceitual é o de explicar, de maneira completa, o que é uma família.

Felizmente, a pluralidade fática das famílias vem mostrando, de maneira bastante clara, que nem sempre a família será aquela do século passado, formada por um pai e uma mãe. As mais diversas composições familiares são formadas, são construídas, outras destruídas e assim tem sido. Se você concorda ou discorda de certos “modelos”, é algo que vai trazer incômodo para você, mas o seu incômodo não vai mudar os fatos. E isso é certo.

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Ter um estado sexual, masculino ou feminino é uma questão de fisiologia. Sentir-se uma mulher ou um homem não é algo da fisiologia, mas sim, um direito fundamental, o direito à autodeterminação. Ser quem eu me sinta ser, é sobre isso que estamos falando. E talvez essa seja a maior garantia de felicidade e de boa convivência familiar. A realização pessoal, o bem estar emocional individual repercutindo realização, alegria e amor nos núcleos familiares. E isso não se conquista, necessariamente, a partir do estado sexual predeterminado pela natureza e pela genética, e é sim, passível de modificação. Ser um pai não é sobre ter órgão sexual masculino, definitivamente.

Outras questões surgem e são inquietantes, sem dúvidas: se você é mãe, e o seu filho não tem um pai presente, você não será prestigiada no “Dia dos Pais”? Seu filho vai ser menos feliz por isso? Ter alguém que partilhe a sua vida entre desenvolver o seu próprio projeto de vida e o do filho, para criar, educar, amar este filho é também algo que independe do estado sexual.

ser pai nao depende da condicao sexual

E se você paga a dura a pena de não poder conviver com o seu filho? Isto porque você foi vítima de alienação parental, e sente todos os dias essa dor, e não apenas no dia escolhido para a celebração de ser um pai. Você é menos pai por isso? Com certeza, não.

Como dito, você pode não ter aquela família dita tradicional, mas você pode ser muito feliz e realizado com o fato de ser pai todos os dias, daqueles filhos cujas certidões de nascimento não estão na sua gaveta de documentos, mas na sua gaveta da vida, no seu pensamento e nos seus sentimentos mais sinceros de amor, respeito e responsabilidade por uma parentalidade que nasce e renasce todos os dias, sendo construída e solidificada na socieafetividade.

E se você não é pai, lembre-se: você é filho! E por mais óbvio que pareça, pense nisso e viva as suas relações parentais como bem lhe aprouver. Ser pai ou mãe, pai e mãe, mãe e mãe, pai e pai, pais e mães, só mãe ou só pai, apenas seja. Sem rótulos, sem nomenclaturas.

[1] Camila é Mestre em Direitos Humanos e Democracia, pela UFPR – Universidade Federal do Paraná. É professora universitária no Curso de Direito do Unicuritiba – Centro Univeristário de Curitiba, nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em Direito, desde 2002. Foi Chefe do Departamento de Direito Privado, no Curso de Graduação em Direito, de 2011 a 2014, e Membro do Núcleo Docente Estruturantes – NDE, de 2011 à 2018. É professora conteudista e responsável pela Pós-Graduação em Direito de Família do Unicuritiba. Tem atuação profissional especialmente nos seguintes temas: consultoria e assessoria na estruturação de planejamento familiar e sucessório, mediação e resolução de conflitos familiares (judiciais e extrajudiciais).
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